Os últimos posts aqui foram uma série (ainda inacabada, e que eu ainda pretendo continuar) sobre LaTeX e Emacs. Fora isso, não escrevo nada aqui desde fevereiro. Considerando o momento atual, achei interessante colocar uns pensamentos aqui, até mesmo como mecanismo pra lidar um pouco com a ansiedade (cuja origem vai ficar mais clara ao longo do texto).
Em 2022 eu iniciei uma jornada… inusitada, para dizer o mínimo. Depois de já ter terminado um Bacharelado em Física, Mestrado e Doutorado em Ciências (esse é o nome oficial, por sinal), e algumas experiências “lá fora”, aqui estava eu, na pele de um ingressante de novo. E na Física, de novo.
Uma pessoa nos 40 fazendo faculdade não é novidade nenhuma. Mas o meu caso foi um pouco mais peculiar que isso. Afinal, apesar de algumas diferenças, eu basicamente estava ingressando no mesmo curso. Tinha outro nome, e outro código – e esse “loophole” foi o que possibilitou que eu pudesse me matricular, diga-se de passagem – mas, em essência, é o mesmo curso. A Física Médica é um curso de Física, antes de mais nada – mesmo que seja um curso que tem um foco específico.
Sinceramente, não era a ideia inicial. Depois de algumas decepções, eu tinha… desistido da Física. Estava buscando realmente um novo caminho, na Ciência da Computação (mas eu já contei essa história aqui). Mas, no fim das contas, entendi o recado que o Universo vinha me mandando há 25 anos. Meu amor pela Física me fez escolher a Física Médica, e com um plano em mente: fazer tudo de novo. Não sei exatamente o que eu estava pensando, mas meu plano era me envolver. Participar da construção do curso, de qualquer maneira que eu pudesse.
Construindo a FisMed… e me reconstruindo
Então foi isso que eu fiz. Me envolvi, fazendo praticamente o oposto do que fiz da primeira vez. Fui representante discente, me envolvi no centro acadêmico, ajudei os colegas como pude… e tentei fazer tudo isso sem ser impositivo. Principalmente, sem induzir as pessoas a fazer aquilo que eu achava certo. Sempre busquei oferecer sugestões, apontar possíveis consequências e, de maneira geral, compartilhar as informações de que dispunha para que cada pessoa pudesse tomar suas próprias decisões. Fiz questão de agir dessa maneira: sem julgamentos, sem impor minhas convicções, mas acolhendo as dúvidas, respeitando as diferentes perspectivas e oferecendo o apoio que estivesse ao meu alcance. Afinal, participar da formação de uma comunidade acadêmica não significa fazer com que todos sigam o mesmo caminho, mas contribuir para que cada um tenha condições de construir o seu.
Como sempre fiz questão de reforçar, a construção do curso — e de tudo o que isso envolve — é, antes de mais nada, um esforço coletivo. Por isso, não pode haver espaço para a personalização das iniciativas ou para a apropriação individual das conquistas. Cada avanço é resultado do esforço de muitas pessoas, com diferentes contribuições, perspectivas e formas de participação. Não importa quem teve a ideia, quem tomou a iniciativa ou quem esteve à frente de determinada atividade: o que construímos pertence à comunidade, e não a uma pessoa em particular. Mais do que deixar uma marca pessoal, sempre me pareceu importante contribuir para que aquilo que construímos possa continuar existindo, crescendo e se transformando, independentemente de quem esteja à frente.

Foi também com esse espírito que eu participei da fundação do Diretório Científico Marília Teixeira da Cruz (DCMTC). A criação do DCMTC foi mais um esforço coletivo, construído a partir da disposição – e da iniciativa – de estudantes que acreditavam na importância de ter um espaço próprio de organização, representação e participação na vida universitária. Tive a oportunidade de assumir sua primeira presidência, mas sempre entendi que o mais importante não era quem ocupava esse cargo, e sim o que conseguiríamos construir juntos. O DCMTC não nasceu para ser um projeto de uma gestão ou de um grupo específico, mas uma instituição dos estudantes de Física Médica, capaz de se renovar e continuar seu trabalho muito depois de nossa passagem pelo curso.
Encontrando uma vocação (finalmente)
Comentei no começo do ano sobre o dia em que eu descobri a existência da Física Médica. Não sei se acredito em destino, mas é difícil não olhar para certas coisas em retrospectiva e encontrar nelas algum significado.
A Física sempre exerceu sobre mim uma atração difícil de explicar. Foi ela que me levou à primeira graduação, ao mestrado, ao doutorado e à pesquisa. Mas, mesmo com essas conquistas, eu tinha uma dificuldade imensa em encontrar um caminho, algo para fazer com tudo isso. Foi na Física Médica que encontrei algo que até então não havia experimentado da mesma maneira: uma vocação.
Uso essa palavra com algum cuidado. Não estou falando de um dom especial, tampouco de uma espécie de chamado que me tornaria particularmente adequado à profissão. Falo de encontrar uma atividade na qual aquilo que sei fazer, aquilo que gosto de fazer e aquilo que considero importante fazer parecem, finalmente, convergir. E foi na Radioterapia que essa sensação se tornou mais evidente.
Do ponto de vista científico, a área reúne praticamente tudo que sempre me interessou na Física: a interação da radiação com a matéria, a dosimetria, a modelagem matemática, a instrumentação e os métodos computacionais. Acrescenta a isso uma dimensão que me fascina particularmente, a radiobiologia, e a possibilidade de investigar como os processos físicos se traduzem em respostas biológicas.

Mas não foi apenas isso que me aproximou da Radioterapia. O que tornou essa escolha particularmente significativa foi perceber que todo esse conhecimento tem uma finalidade muito concreta: contribuir para o tratamento de pessoas. Um cálculo de dose não é apenas um exercício de modelagem. Uma medida não é apenas um número acompanhado de sua incerteza. A precisão, a confiabilidade dos procedimentos e a capacidade de identificar possíveis erros têm consequências que ultrapassam o laboratório ou a publicação científica. E o tratamento não acontece isoladamente: ele depende de uma equipe, de uma estrutura assistencial e das condições em que cada paciente consegue realizá-lo. Até mesmo questões aparentemente distantes da Física, como as dificuldades de acesso ao serviço ou as interrupções no tratamento, podem adquirir consequências radiobiológicas importantes.
Talvez por isso eu tenha me interessado tanto por uma concepção de Física Médica que não separa o rigor científico da responsabilidade com as pessoas. E talvez seja também por isso que minha aproximação com a área tenha acabado se refletindo em outras dimensões da minha vida, como a docência, a representação estudantil e o interesse pela formação interprofissional.
Hoje, tenho um orgulho enorme de fazer parte da área da Saúde. Não porque tenha deixado de ser físico, mas porque encontrei uma maneira de colocar minha formação em Física a serviço de algo com que me identifico profundamente. E essa identificação acabou sendo forte o suficiente para orientar escolhas que, consideradas apenas do ponto de vista profissional ou financeiro, talvez fossem difíceis de justificar.
Acho que foi assim que descobri minha vocação. Não em um momento de revelação, mas ao perceber, pouco a pouco, que a Física Médica havia deixado de ser simplesmente uma área na qual eu gostaria de trabalhar, ou um jeito de “reviver” os tempos de graduação. Ela tinha se tornado a profissão que eu queria exercer.
Toda escolha tem seu custo
É claro que toda essa história teve um custo considerável.
Para começar, ingressei na Física Médica em 2022, quando ainda estávamos saindo da fase mais aguda da pandemia de COVID-19. Depois de quase dois anos de isolamento, restrições e incertezas, a universidade começava a retomar suas atividades presenciais, e todos tentávamos, de alguma maneira, reconstruir nossas rotinas. Como todo mundo, eu não saí incólume daquele período – desempregado, desiludido e sem certezas sobre o futuro.
Foi no meio disso que eu comecei uma nova graduação. Éramos a primeira turma de um curso que também estava dando seus primeiros passos, em uma universidade que ainda precisava lidar com as consequências da pandemia. As aulas voltaram a ser presenciais em 2022, mas o uso de máscara era obrigatório. Havia muito a descobrir, organizar e construir, tanto no âmbito acadêmico quanto nas relações entre as pessoas. De certa forma, estávamos aprendendo a ser estudantes daquele novo curso enquanto reaprendíamos a conviver na universidade.
Essa circunstância também torna particularmente significativo, para mim, o envolvimento que eu tive com a representação estudantil e com a construção de espaços de convivência e organização coletiva. Depois de um período em que tantas relações foram interrompidas ou reduzidas às telas dos computadores, participar ativamente da vida universitária ganhou uma importância especial.
Mas havia também as dificuldades de ordem prática. A vida não espera pela gente, e com a idade vêm as responsabilidades. Sem pais para me sustentar, e com uma casa que precisava ser mantida – o orçamento que tornaria viável a vida de alguém mais jovem para mim não era suficiente. Em cima de tudo isso, a condição econômica do país era um desastre – de novo o governo incompetente e corrupto, com delírios de grandeza fascista e ditatorial mostrando sua cara, o que deixava tudo ainda mais caro.
Em 2023, depois de um ano da “vida de estudante”, comecei a trabalhar no Instituto de Geociências da USP, e passei a conciliar as responsabilidades do emprego com as atividades da graduação. A partir daí, as coisas ficaram muito mais complicadas. Durante boa parte do curso, vivi uma jornada dupla, às vezes tripla, tentando dar conta do trabalho, das disciplinas, das atividades de pesquisa e de tudo aquilo em que fui me envolvendo ao longo do caminho – sem contar as responsabilidades de casa.
Não vou fingir que foi fácil. Houve períodos em que parecia não haver horas suficientes no dia para fazer tudo o que precisava ser feito. E, mesmo quando conseguia cumprir minhas obrigações, nem sempre sobrava tempo ou disposição para fazer as coisas com a dedicação que eu gostaria. O emprego – a necessidade dele, na verdade – me fazia perder oportunidades, que dependiam de horário livre durante o dia. Felizmente, as pessoas responsáveis pela gestão do laboratório onde eu atuava foram bem tolerantes e eu pude, pelo menos em parte, conciliar as coisas.
É importante também lembrar que eu sempre fui franco e honesto com relação aos meus planos para o futuro – e nunca fiz nada escondido. E, ainda assim, por mais que muitas vezes eu tenha caído (e ainda caia) na armadilha da “Síndrome do Impostor”, tive um papel central na organização da criação do laboratório, participei das decisões e do comissionamento dos equipamentos. Saí de lá com o lab todo montado – e com um pouco de remorso de não seguir trabalhando ali. Mas, por mais que eu quisesse, o fato de não ter muito interesse pelo assunto funcionava como uma barreira praticamente intransponível – um “bônus” do TDAH.
Fazer uma segunda graduação depois de um doutorado tem algumas particularidades. Por um lado, a experiência acadêmica acumulada ajuda muito. Especialmente no começo do curso, chegava a ser interessante poder aproveitar as disciplinas, uma a uma, depois de ter ruminado aqueles conteúdos por quase vinte anos. Pude apreciar nuances e detalhes que, da primeira vez, ou passaram despercebidos ou foram simplesmente descartados por parecerem desnecessários. Por outro lado, a vida não volta a ser aquela da primeira graduação. As responsabilidades são outras, as necessidades materiais também, e a disposição para passar noites em claro já não é exatamente a mesma. Conforme fui avançando no curso, ficou cada vez mais difícil conciliar todas essas atividades.
Especialmente na reta final, com os estágios obrigatórios e as demais exigências da formação, precisei fazer uma escolha muito difícil (difícil de verdade, não aquela palhaçada do Estadão), e suas consequências não desapareceram simplesmente porque eu estava fazendo aquilo que queria. Meu contrato de trabalho tinha tempo determinado, então de certa forma a escolha não foi tanto sobre pedir demissão, mas sobre buscar maneiras de conseguir alguma remuneração que fossem menos restritivas. De toda forma, a perda daquela fonte de renda trouxe uma série de preocupações que passaram a fazer parte do meu cotidiano. Afinal, gostar do que se faz, encontrar uma vocação e estar convencido de que tomou a decisão certa não resolve as contas no fim do mês.
Ao longo de 2026, fui buscando caminhos – no começo, com uma bolsa de curto prazo para iniciar um trabalho de pesquisa no ICESP, e agora no segundo semestre, como professor temporário no IFUSP (mais uma situação inusitada). Neste momento, ainda não disponho de uma fonte de renda suficiente para atravessar essa etapa com a tranquilidade que gostaria. Há algo particularmente desconcertante em chegar a essa situação depois de tantos anos de formação acadêmica e de experiência profissional. Concluí uma graduação, um mestrado e um doutorado, trabalhei, construí uma trajetória na pesquisa e, ainda assim, me encontro novamente diante das incertezas materiais de quem está tentando ingressar em uma profissão.
Não digo isso por acreditar que minha formação anterior deveria me colocar acima dessas dificuldades. Pelo contrário: essa experiência também me fez pensar sobre as condições em que as pessoas conseguem se dedicar à própria formação. Conciliar estudo e trabalho é uma realidade para muitos estudantes, e nem todos têm a possibilidade de abrir mão de uma fonte de renda quando as exigências do curso se tornam incompatíveis com o emprego.
É importante reconhecer que tive condições de fazer escolhas que outras pessoas talvez não pudessem fazer. Mas isso não significa que elas tenham sido fáceis, nem que suas consequências deixem de existir. Para alguém na minha situação, isso envolve outras pessoas além de mim – família, e principalmente, minha esposa. Sem o sacrifício dela, eu não estaria nem perto (nem longe!) de onde estou agora.
Mas também não quero romantizar os sacrifícios envolvidos nessa trajetória. Acredito que a dedicação à ciência, à educação e à saúde não deveria depender da disposição de alguém para suportar jornadas exaustivas ou condições financeiras precárias. Ter encontrado uma profissão com a qual me identifico não torna essas dificuldades desejáveis, muito menos necessárias.
Ainda assim, fiz minhas escolhas. Algumas delas tiveram consequências que continuo administrando, e outras ainda poderão exigir mudanças nos meus planos.
E é assim que eu chego ao final da graduação, com a residência em Radioterapia como próximo objetivo. Depois de tudo o que foi necessário para chegar até aqui, a possibilidade de começar uma nova etapa da minha formação profissional tem um significado que vai muito além da aprovação em um processo seletivo.
O que há pela frente
No último domingo, chegou a prova de residência para a qual vinha me preparando há tanto tempo. Depois de quatro (quase cinco) anos de graduação, estágios, disciplinas e muitas horas de estudo, finalmente chegou o momento de tentar ingressar na próxima etapa. Não tem sido fácil – conciliar tudo tem sido uma constante fonte de preocupação e ansiedade. Essas últimas duas semanas eu dediquei quase que exclusivamente para estudar para essa prova. Acho que eu nunca planejei tanto, estudei tanto, nem me preparei tanto. É uma aposta grande – quase grande demais.
Agora, começa outra espera. Ainda há a correção das provas, a análise curricular e as demais etapas do processo seletivo. A divulgação da classificação final está prevista para janeiro de 2027. É uma espera que envolve sentimentos contraditórios. Por um lado, estou chegando ao fim de uma etapa importante, cada vez mais próximo de exercer a profissão que escolhi. Por outro, ainda não sei se vou conseguir fazer essa transição no momento em que gostaria.
E, depois de tudo o que contei até aqui, acho que fica mais fácil entender por que essa incerteza tem um peso tão grande. Se conseguir a vaga, terei pela frente dois anos de formação intensiva em Radioterapia. Serão novas responsabilidades, novos conhecimentos e, principalmente, a oportunidade de desenvolver a experiência clínica que a minha trajetória acadêmica, por mais extensa que seja, não é capaz de substituir.
A residência também representa uma possibilidade concreta de – pelo menos – começar a pensar em reorganizar a vida financeira em casa. A bolsa não representa um salário invejável, mas pelo menos representa alguma estabilidade por dois anos. Se o incentivo adicional oferecido pelo Ministério da Saúde for mantido em 2027, será um tremendo alívio — um que pode ajudar a diminuir a carga que acabo colocando sobre as outras pessoas. Em particular a minha esposa, para quem os últimos anos têm sido de sacrifício e, infelizmente, de decepção com o mercado de trabalho.
Se eu estiver dentro da residência, exercendo – treinando para exercer! – uma atividade que me cativa tanto, e ainda por cima puder oferecer alguma forma de alívio para ela, seria o sonho. Aceito a carga imensa de trabalho (60 horas por semana), ou as dificuldades que (certamente) virão. E ainda por cima, ainda há incertezas – a vida é praticamente feita delas – não sei se essa bolsa extra vai ser mantida em 2027, nem em quais condições.
Boas perspectivas
O Brasil ainda tem muito a avançar no acesso à Radioterapia. O projeto RT2030, da Sociedade Brasileira de Radioterapia, mostrou a dimensão das necessidades de expansão dos serviços e de formação de profissionais especializados. Em um dos estudos resultantes do projeto, a estimativa de físicos médicos necessários para 2030 é substancialmente superior ao contingente identificado no levantamento de 2020.
E essa necessidade não se resume à expansão do número de equipamentos. A incorporação de novas tecnologias e técnicas de tratamento exige profissionais capazes de realizar comissionamento, planejamento, dosimetria, garantia da qualidade e supervisão de proteção radiológica. Isso não significa que a conclusão da residência garanta uma contratação imediata. A distribuição das oportunidades pelo país é desigual, e algumas posições exigem certificações e habilitações adicionais. Ainda assim, vejo possibilidades concretas de construir uma carreira na área, com condições profissionais e financeiras melhores do que as que tenho hoje.
E é importante dizer isso sem constrangimento. Não escolhi a Física Médica por causa da remuneração, mas também não considero que encontrar uma vocação deva significar abrir mão da possibilidade de viver dignamente do próprio trabalho. Depois de tantos anos de formação, quero poder exercer uma profissão com a qual me identifico, continuar estudando, fazer pesquisa, contribuir com a formação de outras pessoas e, ao mesmo tempo, ter condições de sustentar minha própria vida.
A residência é, neste momento, o caminho pelo qual pretendo aproximar essas coisas.
Mas há, evidentemente, a outra possibilidade.
Se não conseguir a vaga, terei de reorganizar meus planos. Provavelmente, isso significa procurar outras alternativas de trabalho, encontrar uma maneira de recuperar alguma estabilidade financeira e decidir como (e se) me preparar para uma nova tentativa.
Não seria o desfecho que gostaria para este momento, e seria artificial fingir que não ficaria frustrado. A decisão de priorizar a conclusão da graduação teve consequências reais, que não desaparecerão simplesmente porque continuo convencido da escolha profissional que fiz. Ao mesmo tempo, sei que o resultado de um processo seletivo não encerrará essa história. A Radioterapia continua sendo a área na qual quero trabalhar, e a formação que construí até aqui continuará fazendo parte de mim.
O que esperar do futuro?

Por enquanto, não sei exatamente o que esperar dos próximos dois anos. Posso começar a residência em Radioterapia ou talvez precise reorganizar meus planos e encontrar outro caminho. A incerteza é real e, depois de tudo o que essa escolha exigiu, não vou fingir que é pequena, nem que o peso que ela representa não seja enorme.
Mas, quando olho para os últimos cinco anos, percebo que o que mudou foi muito mais do que a área em que pretendo trabalhar. Mudei minha maneira de me relacionar com a Física, reencontrei a universidade em outro momento da vida, construí coisas com meus colegas e descobri uma profissão à qual quero me dedicar. Fiz escolhas, assumi riscos, encontrei dificuldades e, sobretudo, conheci pessoas que tornaram essa trajetória muito mais significativa do que eu poderia imaginar quando tudo começou. Nada disso garante que os próximos passos acontecerão como eu gostaria. E talvez esteja tudo bem admitir que, mesmo depois de tantos anos estudando, trabalhando e tentando planejar o futuro, ainda há muita coisa que simplesmente não sei.
O que sei é que quero continuar na Física Médica. Quero aprender, trabalhar, ensinar e contribuir, dentro das minhas possibilidades, para a profissão e para as pessoas que encontrei pelo caminho. Quero, também, encontrar condições para fazer tudo isso sem precisar abrir mão de uma vida para além do trabalho.
Talvez seja por isso que resolvi escrever sobre isso agora. Não tenho um desfecho para anunciar, nem uma grande lição para compartilhar. Tenho apenas uma história que continua sendo construída, com escolhas das quais me orgulho, outras cujas consequências ainda estou aprendendo a administrar e um futuro que, por enquanto, permanece em aberto — mesmo na minha idade.
E talvez por isso mesmo a melhor forma de terminar este post seja justamente essa: sem uma conclusão. Entre o que eu escolhi, o que não posso controlar, tudo aquilo que ainda está por vir e todas as escolhas que eu ainda terei de fazer.
Por enquanto, é isso. O resto da história ainda não sei contar.
Como diria o Chanceler Gorkon, “To the Undiscovered Country!”


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